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Aug. 9th, 2008

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Atonement: um comentário

Um breve comentário sobre o filme que capturou meu coração e mente...

 

É muito bom perceber que o cinema ainda é capaz de produzir arte, de ser o que o cinema vem se propondo ser há anos - sensorial, emocional, intelectual. Encontrar o equilíbrio entre as imagens belas, a música bela, as belas atuações e as pessoas belas que atuam e ainda assim ser um produto que não pode apenas ser sentido, tem que também ser compreendido, analisado, dissecado.

 
Quando assisti pela primeira vez acho que a beleza do filme me tomou, a incrível tristeza de tudo aquilo. Meu lado angsty falou mais alto. Existe uma crueldade explícita, aquela que te pega de jeito, mas talvez o mais importante seja a crueldade não explícita. E isso já mexe com o intelecto. E existem tantas coisinhas mais no filme, maneiras em que o visual esconde símbolos, referências. Tudo muito bem pensado, mas nunca cerebral demais. Mesmo porque alguns momentos precisam da cumplicidade da emoção, e funcionam. E essa é talvez a maior crueldade de todas, e o triunfo final da Briony, a contadora de histórias.

 
Eu amo cinema, foi a primeira arte com a qual tive contato, quando tinha cinco anos e nem sabia ler e nem sabia da existência da arte. Acho que o primeiro filme que assisti foi o francês "Pele de Asno" e até hoje tenho na memória a beleza das imagens e o impacto da história. Odeio o xiitismo de alguns literatos em relação ao cinema, de que nunca um filme vai ser melhor que um livro do qual ele foi adaptado. Ao mesmo tempo que algumas coisas são únicas no ato de ler uma história, elas são únicas quando se vê a mesma história na tela. Aliás, ironicamente, Briony fala sobre isso logo no início do filme. E sim, algumas cenas do livro são mais evocativas na telona que no próprio texto de Ian McEwan, como o reencontro dos amantes no salão de chá.
 
Relembrar o filme me faz pensar na beleza e no poder das imagens que o Joe Wright escolheu tão meticulosamente. Que belo diretor, e ele é ainda tão novo, 35 anos eu acho. Espero que não vá para os States tão cedo; por mais que eu admire muitas coisas na cultura americana, adoro mais ainda a distinção de culturas, e amei a sensibilidade européia (e não só inglesa, de jeito nenhum, e isso é um dos trunfos do filme) que está em todas as cenas de Atonement.
 
E as imagens se relacionando, a todo momento...se formos analisar cada fotograma, vamos perceber como tudo foi pensado, estudado, e ainda assim o filme retem sua sensibilidade e emoção. Por exemplo, estava lembrando outro dia da cena do Robbie no banho, olhando o avião passando pela clarabóia. Naquele momento pra ele a idéia da guerra é tão irreal, e embora ele realmente possa ver o avião este mais parece um brinquedo distante, ele até imita baixinho o som do ronco do motor. Quando a guerra se torna real, o que ele vê não é o verdadeiro avião, ironicamente, e sim apenas seu reflexo na água, quando está a caminho de Dunkirk. Real e irreal, o filme brinca com isso o tempo todo, alterando nossas expectativas assim como as dos personagens.
 
Acho que, no filme, a parte mais difícil de ser desenvolvida foi a do Robbie na guerra. Primeiro, por um problema de orçamento mesmo. Afinal, para um filme que tinha o orçamento do tamanho do salário do Tom Cruise (outra coisa que deve ter deixado muitos diretores revoltados - ver como a qualidade de um filme não depende necessariamente de grana) montar uma operação de guerra, literalmente, seria suicídio. Em relação a filmes assim, com suas explosões, bombas caindo, esquadrilhas de aviões, multidões de soldados, ou se faz bem feito ou vira um lance meia-boca horroroso. E o diabo do Ian McEwan é MUITO minucioso em suas descrições do que foram os horrores daquela caminhada interminável em direção a Dunkirk. Dá pra ouvir o barulho das bombas caindo, sentir o peso do pé que não consegue mais correr na lama, sentir o cheiro das centenas de cadáveres espalhados pelo caminho. Enfim, se houvesse grana, a odisséia de Robbie na rota de fuga em direção à Mancha daria um filme de guerra dos melhores, talvez um dos mais contundentes já feitos. Mas como isso se encaixaria com o que já tínhamos visto no primeiro ato? Será que, depois da ópera da parte um, seria interessante ver um "Saving Private Ryan"?

 
Parece que o Wright se debatia com essas idéias. Ele mesmo disse que gostaria de ter mais grana pra mostrar pelo menos um dos bombardeios descritos no livro. Mas a questão estilística estava pesando também. Qual seria o propósito de ser minucioso com os horrores, em relação ao personagem? Porque ao mesmo tempo que o McEwan faz questão de descrever a via crúcis física de Robbie, ele está igualmente preocupado com sua via-crúcis mental. Com o delicado equilíbrio entre a sanidade e a loucura, entre o "vou esperar você" e o "de que adianta chegar", entre as coisas que deixaram de ser feitas e o que poderia ser recomeçado. Certamente a decisão de focar todo o caos da retirada naquele pequeno grupo de 3 soldados foi controversa - alguns críticos reclamaram que faltaram os tais horrores, como se tudo tivesse que ser literal pra fazer a gente sentir. Quando Wright teve a brilhante idéia de mostrar as cenas que se viam na praia (como descritas por Ian) em um take só ("Só pra se exibir", disseram alguns. Não, por problemas de logística, de grana, de tempo - e sim, pra se exibir um pouco, porque não? Que pode pode!) ele atingiu o ápice dessa mistura da realidade e a irrealidade, que é a situação do personagem. Dali em diante o que é delírio e o que é real? Ao mesmo tempo, foi genial manter a ordinariedade dos soldados (que só queriam se mandar dali e que não tinham tantas questões existencialistas na cabeça como o Robbie), personificados por Mace e principalmente Nettle, o que fica com Robbie até o fim. No livro, através de suas brincadeiras e reclamações, os dois acabam sendo o elo de Robbie com a realidade. O filme também nos dá esses momentos de alívio; dá par rir de algumas coisas, assim com dá pra rir com algumas cenas do livro.
 
Mas assim como no filme inteiro, o que também acho especial nesse segmento é a opção pelo silêncio, pela sutileza, em cenas que talvez, num filme mais tradicional, fossem feitas com música bombástica e barulho de explosões e gritos. São notáveis os momentos finais de Robbie, a morte pequena e silenciosa, uma vida que se extingüe como a chama de um fósforo. Brilhante e breve, a vida de Robbie Turner.
 
Classe, muita classe - é o que 'Atonement' tem de sobra.
















Jun. 12th, 2008

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In this world...Atonement fanvideo










Jun. 11th, 2008

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Promises: "Atonement" em fotos e música

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                         PROMISES 





























 





 

 



May. 28th, 2008

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Um recomeço

Parece que finalmente encontrei uma utilidade para o Live Journal. Com isso, reformulei tudo, começando pelo nome (não que alguém tivesse realmente entrado aqui antes, mas whatever...). Um merecido recomeço.

Ah sim, o nome. Acho que posso falar um pouco a respeito. Bem, quem leu a obra-prima de Ian McEwan, 'Reparação', talvez tenha reconhecido a frase -  'And the long narrow drive way down which they drove Robbie away, into the whiteness'. Até hoje ler isso me dá arrepios. Eu tinha acabado de assistir 'Desejo e Reparação', ainda estava sob seu impacto, e tendo baixado o original de McEwan em inglês corri para ler as últimas páginas. Depois reli o livro em português, mas o "into the whiteness" ficou martelando em minha cabeça. Assim mesmo, em inglês. A tradução do livro é excelente, mas o que posso dizer...o impacto dessa frase traduzida não é o mesmo. Pra mim, ao menos.

É difícil de explicar o que senti quando li essa frase. É a sensação do fim, do inevitável, do que ficou envolto nas brumas esbranquiçadas da memória e do tempo, mas também, estranhamente, a noção do começo de tudo. O fim do livro nos leva ao início, nos faz reviver aquela história, como num círculo eterno. Que engenhosidade de Ian McEwan, deixar sua protagonista, Briony, nos dizer que estamos presos a esse círculo do fim e do recomeço tanto quanto ela. Como leitores, estamos tão conscientes da morte dos amantes e também de sua sobrevida literária quanto ela, a autora. "Deus" nos contou esse segredinho. Não existe um fim, ela disse, mesmo quando sumimos na brancura.

Também não é difícil relacionar into the whiteness com o ato de escrever. O medo que inspira a brancura das páginas, da tela do computador. Como é preciso se deixar levar para dentro dela, e que depois que entramos não existe mais volta.

Acho que para uma introdução já foi o bastante, não? Agora, o que pretendo com esse Live Journal...bem, no momento é um LJ quase que exclusivamente dedicado às minhas elocubrações sobre "Reparação", livro e filme. Já escrevi muito sobre ambos, e os escritos estão por aí espalhados; achei que aqui seria um bom lugar para reuni-los. Vai ser um LJ bilingüe porque realmente não vou ter o menor saco de reescrever em português tudo que já andei digitando em inglês nas altas horas da madrugada - e vice-versa. Quem gostou do filme e do livro é super bem vindo para deixar opiniões e comentários. Não se preocupem, que esse não vai ser um LJ diário tipo "hoje-tive-um-dia-péssimo". O que não quer dizer que comentários os mais variados de minha parte não venham a se insinuar de quando em quando, claro! :)

O LJ também é dedicado ao alvíssimo James McAvoy. :) Então, sim, muito, MUITO material sobre o rapaz, e claro que comentários sobre seu talento e suprema gostosice são muitíssimo bem vindos! ;)

Agora, de volta ao começo... ;)