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May. 29th, 2008

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James: uma breve biografia

Há algum tempo, eu estava tentando "explicar" James McAvoy para uma amiga que só o conhecia como o fauno Sr. Tumnus de "As Crônicas de Nárnia". Quando olhei, o email estava se transformando em uma biografia - uma biografia informal, claro, quase como se fosse uma conversa entre amigos.

Dei uma ajeitadinha, e ei-la. Como eu disse, não é uma biografia que está preocupada com datas certinhas e coisas assim. Num dos próximos posts, vou colocar aqui a filmografia completa de James, e me aprofundar um pouco mais a respeito de seus filmes.


James McAvoy nasceu em Glasgow, na Escócia, em 1979 e teve uma infância meio complicada - os pais separaram-se quando ele tinha sete anos, e o pai acabou abandonando a família de vez - até hoje James não  tem contato com James Sr., que já apareceu choramingando em algum tablóide britânico depois que o filho ganhou o Bafta. Mas voltando a nossa história... 

A mãe, Elizabeth, era muito jovem e se preocupava em não poder dar atenção suficiente aos filhos, já que trabalhava como enfermeira e fazia muitos plantões. James e a irmã mais nova Joy acabaram então indo morar com os avós maternos - mummy morou um tempo com eles até que se mudou para um prédio do outro lado da rua, e pode-se dizer que os manos sempre a tiveram presente, apesar de terem sido 
criados mesmo pelos avós . A família vivia em um dos bairros mais barra-pesada de Glasgow, num daqueles "projects" que por aqui a gente se habituou a chamar de BNH. Mas vovô James (que era açougueiro) e vovó Mary (que fazia vários biscates, e até dirigia caminhões de entrega por Glasgow!) deram uma educação esmerada pro menino, uma mistura de dedicação amorosa com o bom-senso da classe trabalhadora inglesa (ou escocesa, no caso), e instilaram nele a noção de que  as coisas se obtém através de muito trabalho e esforço pessoal. Nunca deixaram ele ficar vagabundeando pelas ruas, entre os muitos desempregados e drogados da área, até terem certeza que o moleque tinha a cabeça no lugar e "não iria virar um completo idiota" - como o James mesmo falou. Ele também comentou que os avós nunca lhe disseram "Você pode ser tudo que quiser na vida" - segundo James, a maior mentira que se pode contar para uma criança. O que eles sempre lhe disseram é que ele nunca devia deixar de tentar. Era a educação rigorosa de um bom menino católico, "da escola pra casa, da casa pra escola" até pelo menos seus 16 anos, e James sempre teve a consciência de ter muito menos liberdade que seus colegas, mas a dedicação de seus avós a ele e sua irmã é algo que o enche de orgulho e satisfação até hoje.

Essa boa educação acabou se transformando em sua porta de entrada para o mundo do teatro e cinema. Porque um belo dia, um certo diretor/ator escocês foi fazer uma palestra na escola do menino James, então com 15 anos, e o garoto ficou ao mesmo tempo curioso com as histórias do diretor, e chocado com o comportamento agressivo de alguns colegas, que resolveram ser rudes e atormentar o homem por o acharem efeminado, e "posh" demais para suas sensibilidades "working class". Depois da palestra, o educadíssimo James acreditou que seria de bom-tom agradecer pelas preciosas informações e também se desculpar pelos colegas idiotas. Aí achou que talvez houvesse alguma oportunidade - quem sabe ele não poderia trabalhar na próxima produção do famoso diretor, fazer o chá, varrer o chão? Não que até aquele momento ele tivesse sequer cogitado em ser ator (já tinha até pensado em ser padre missionário, ou entrar para a Marinha), mas filmes, e o ambiente que o diretor descreveu em sua palestra, tinham uma certa fascinação. E também podia ser um trabalho em potencial, claro...algo importante para um jovem que entendia bem as dificuldades da vida da classe trabalhadora.  Para sua surpresa, três meses depois, o tal diretor, David Hayman, entrou em contato oferecendo a oportunidade para James fazer um screen test para um de seus filmes. Assim, na lata. Pode-se imaginar que o menino de pele alva, com seus olhos azuis enormes e brilhantes, tenha causado uma certa impressão no diretor, para que o homem se lembrasse de James depois de tê-lo visto apenas uma vez depois da palestra. Teria sido apenas uma atração física, ou talvez a desenvoltura do garoto, seus bons modos? Talvez a soma de todas dessas coisas; embora surpreso, James resolveu seguir o conselho do avô e, ao menos, tentar.  

James disse depois que, apesar de ter conseguido o papel em "The Near Room", se achou uma droga quando viu o filme. Mas sua autocrítica sempre foi poderosa mesmo - e ainda é até hoje, o que é um grande atributo para um ator de verdade numa era de meras celebridades (Ian McEwan, o autor do livro "Reparação", comentou que James era "brilhantemente despretensioso, para alguém tão 'hot' "). O fato de não ter ficado satisfeito com sua atuação, apesar de só ter 15 anos e nenhuma experiência, demonstra o quanto ele levava a sério o trabalho. Qualquer trabalho, na verdade, porque James nunca achou que alguém se torna mais interessante ou especial por ser um ator. Ele tinha um bom exemplo disso em casa.


James em seu primeiro filme, "The Near Room", 1995

O que acabou acontecendo foi que esse primeiro papel o fez ser picado pelo bichinho da atuação, embora nos 2 anos seguintes James tenha apenas prosseguido com seus estudos, ainda se debatendo entre a idéia de entrar para a Marinha ou tentar uma vaga em uma universidade (a essas alturas a idéia de ser padre missionário já tinha sido abandonada, pois ele havia acabado de descobrir as meninas e não tinha nenhum interesse em ser um celibatário). Ele foi um bom aluno, e quando chegou o momento de decidir seu futuro, já tinha propostas de três universidade em Glasgow, para Inglês, Política e Estudos Sociais. Aí de repente surgiu outra - improvável até o momento - opção: "Por que não uma Faculdade de Artes Cênicas?" Porque havia, em Glasgow um razoável número de boas escolas dedicadas às artes do palco, e como ele já tinha aquele pequeno papel no currículo, não custava tentar. Escolheu a Royal Scottish Academy of Music and Drama (RSAMD). Os professores que o analisaram para a admissão comentaram depois que James era um dos candidatos mais jovens e um dos mais impressionantes, e não tiveram dúvidas em aprovar sua entrada. Sempre com a mentalidade prática que lhe havia sido instilada pelo avô, James, ao mesmo tempo em que cursava a faculdade, trabalhava de madrugada como confeiteiro em uma Mark & Spencer's. "Se tudo o mais falhar...". Mas não falhou. Começou a fazer muito teatro em Glasgow; como boa parte dos alunos formados na Escócia tentava a sorte em Londres, havia muitos e bons papéis disponíveis nas produções locais. Começou também a fazer pequenos papéis na televisão e no cinema, enquanto ainda estava estudando. Antes mesmo de receber o diploma, James embarcou para os Estados Unidos, onde uma oportunidade de ouro surgiu para um pequeno papel numa das séries mais badaladas de todos os tempos, o drama de guerra "Band of Brothers". Embora como o soldado James Miller sua participação tenha se restringido a um episódio, ainda assim ele conseguiu chamar a atenção de um dos produtores da série, Tom Hanks, como veremos na outra parte da bio...

Logo depois de formado James seguiu o caminho de outros atores escoceses e foi para Londres, aos 20 anos, começar finalmente sua vida adulta longe dos avós, dividindo um apartamento com colegas boêmios e fazendo teatro sem parar. Foi em uma de suas primeiras peças em Londres, "Out in the Open", que ele capturou a atenção de Joe Wright, então um jovem se iniciando na carreira artística, como diretor de séries na BBC. Ele ficou intrigado com aquele ator intenso que fazia o papel de um garoto de programa com um sotaque "scouse" perfeito de Liverpool, embora, como Wright descobriria mais tarde conversando com o diretor da produção, o jovem fosse escocês. Ainda se passariam 5 anos até que os dois finalmente tivessem a chance de trabalhar juntos em "Atonement".



"Out in the Open", 2001


James não teve maiores problemas em fazer a transição do teatro para a televisão em papéis cada vez mais importantes, como um dos protagonistas da mini do Sci-Fi Channel “Filhos de Duna”, onde fazia o papel do complexo Leto II, e também atuando em algumas séries muito elogiadas como "State of Play", sobre um grupo de intrépidos jornalistas (que Hollywood já está transformando em filme - sem James) e "Shameless", onde finalmente seu rosto e seu nome tornaram-se conhecidos do grande público britânico. 


"Filhos de Duna", 2003


Na excelente e premiada “State of Play”, de Paul Abbott, dirigida por David Yates, seu papel como o jovem jornalista Dan Foster atraiu a atenção de bons diretores de cinema ingleses. Tom Vaughan, (que anos depois dirigiria James em “Starter for 10”) comentou: “Assim que James fez sua primeira cena em “State of Play”, virei para alguém e perguntei ‘quem é ele?’ Porque havia uma segurança, uma presença e um carisma que não muito comuns em atores jovens e iniciantes. Era bem óbvio que James era um estrela em ascensão.” 


"State of Play", 2003


Em "Shameless", também escrita por Paul Abbott, ele interpretava Steve, um garotão classe média de Manchester que resolve se tornar ladrão de carros por pura adrenalina, mas que se apaixona pela "working-class" Fiona e sua família complicada, e acaba virando uma espécie de Robin Hood, roubando carros dos ricos para ajudar a namorada e seu monte de irmãozinhos meio que abandonados pelos pai doidão. James ficou pouco tempo na série - apenas 13 episódios, entre 2004 e 2005 - mas o suficiente para penetrar no imaginário coletivo dos ingleses e ainda ter que ouvir até hoje nas ruas algum passante gritar "Shameless!" pra ele. Na época um jornal inglês fez uma pesquisa a respeito dos jovens solteiros mais cobiçados da Inglaterra, e deu James na cabeça - batendo até o Príncipe William! - embora o ator, sempre muito consciente, tenha afirmado que as garotas que votaram não estavam apaixonadas por ele, e sim pelo largadão, charmoso e afetuoso Steve. Modesto, o rapaz...





"Shameless", 2004 - 2005

 
James não ficaria solteiro por muito tempo. A melhor coisa que ficou de "Shameless", segundo ele, foi ter conhecido sua futura mulher, Anne-Marie Duff. Sim, ela era Fiona, a namorada de Steve, e os dois protagonizaram algumas das cenas mais quentes da televisão britânica, com direito a nudez e sexo no chão da cozinha logo no primeiro episódio! Na época seu relacionamento de nove (!!!) anos com uma também jovem atriz estava desmoronando. James estava entrando numa espécie de depressão, incerto sobre os rumos de sua carreira de ator, ainda incerto se ERA mesmo um ator. Anne-Marie, 9 anos mais velha, surgiu como uma espécie de amiga e conselheira e se transformou na pessoa mais importante de sua vida. Quando ganhou o prêmio Bafta como Revelação Britânica em 2006, James disse "Quero agradecer à Anne-Marie, pois ela me ensinou a respeitar a vida." Anne-Marie é ela mesmo uma atriz premiada, mais voltada para as excelentes miniséries da BBC e para o teatro. O casalzinho está firme e forte desde o casamento em 2006.


Um dos próximos posts vai ser dedicado aos filmes de James!